Buscando levar informações importantes para os (as) nossos (as) filiados (as), hoje, vamos falar sobre Isolamento Social x Saúde Mental. O psicólogo, professor e Faixa Preta – 5º DAN, Adriano Freitas (CRP-03/15.916) escreveu um artigo que elucida possíveis dúvidas e apresenta uma série de estratégias para esse momento delicado de isolamento social, buscando sempre o equilíbrio e o autoconhecimento.

Pensando nisso e compondo o plano de ações da Federação Baiana de Judô (Febaju) durante a pandemia do Novo Corona Vírus, a entidade convidou o profissional para realizar atendimentos de aconselhamento psicológico online gratuitos para os filiados e filiadas. Os (As) interessados (as) devem encaminhar um e-mail para contato@febaju.com.br e os atendimentos acontecerão às terças-feiras, das 13h às 17h (O agendamento deverá ser feito com 24 horas de antecedência).

Considerando o significado do que é uma pandemia, é natural que as pessoas de uma forma geral apresentem um “estado de alerta” constante, pois a preocupação excessiva e a sensação de incertezas crescem a cada momento e com isso o impacto psicossocial e seus reflexos negativos, estão diretamente relacionados ao alcance da situação e, principalmente ao grau de vulnerabilidade em que a pessoa está exposta durante o período da pandemia.

Alguns fatores podem agravar a situação de cada pessoa perante a pandemia e, considerando a ciência, temos a melhor forma de prevenção ao vírus COVID-19, que é o Isolamento Social, ao qual todos nós estamos submetidos. Entretanto, é importante ressaltar a seguinte questão: Por que o ato de ficar em casa, causa tanta angústia nas pessoas? E para responder esta questão, eu lanço outra pergunta: O que deveria, de verdade, causar angústia não deveria ser o “não poder ficar em casa” durante a pandemia?

Em primeiro lugar, fatores como, o risco de ser infectado e infectar outros, seguido da dificuldade no acesso a equipamentos de proteção individual. A desconfiança no processo de gestão e coordenação dos protocolos de biossegurança, também aparecem como fatores preponderantes de agravamento da ansiedade com relação à pandemia. Outro ponto importante é a dificuldade em adaptar-se às novas formas de viver.

Há também as pessoas que apresentam sintomas de outras enfermidades comuns aos sintomas causados pelo Corona Vírus, que podem ter seu estado emocional agravado, assim como a preocupação com membros familiares e amigos que fazem parte do grupo de risco. Isolar-se socialmente implica ainda em não realizar atividades do cotidiano como frequentar a escola, academia, faculdade ou ambientes coletivos como shoppings, cinemas, restaurantes dentre outros, locais estes vistos anteriormente como fundamentais para a troca de experiências e com isso, talvez um enriquecimento das experiências psicosócioafetivas e emocionais, sobretudo nas crianças e nos adolescentes, sendo este fator de extrema importância para o desenvolvimento da pessoa e para um entendimento saudável do que é chegar à fase adulta.

Estudos comprovam que, entre um terço e metade da população exposta a uma pandemia pode vir a sofrer alguma manifestação psicopatológica, caso as autoridades não venham a realizar uma intervenção de prevenção à contaminação, como também de cuidados específicos para tratar os infectados. Então, a partir da literatura e da minha experiência, posso descrever algumas reações que as pessoas apresentam durante este momento de incertezas, sobre tudo, atletas que estão longe de seus cotidianos de treinos, viagens, competições, etc. Porém, vale destacar que nem todos os problemas psicológicos e sociais descritos poderão ser considerados como doenças psicológicas.

As reações mais frequentes incluem medo de: adoecer e morrer; perder as pessoas que amam; perder os meios de subsistência ou não poder treinar e competir, para manter seus patrocinadores, ou de não poder trabalhar durante o isolamento e/ou ser demitido; ser excluído socialmente por estar associado à doença; ser separado de entes queridos e de cuidadores devido ao regime de quarentena; não receber um suporte financeiro; transmitir o vírus a outras pessoas.

É esperado também a sensação recorrente de: impotência perante os acontecimentos; irritabilidade; ansiedade generalizada; angústia; tristeza.

Nestes casos de isolamento social, sentimentos e pensamentos relacionados ao desamparo, ao tédio, a solidão e a tristeza, contribuem para o aparecimento de reações comportamentais como: alterações ou distúrbios de apetite (falta de apetite ou apetite em excesso); alterações ou distúrbios do sono (insônia, dificuldade para dormir ou sono em excesso, pesadelos recorrentes); conflitos interpessoais (com familiares, equipes de trabalho…), e; falta de motivação para cumprir uma rotina diária.

Pensando mais especificamente no universo dos atletas do judô, apresento algumas recomendações que podem ajudar a amenizar os sinais de desconforto:

  1. Reconhecer e acolher seus receios e medos, procurando pessoas de confiança para conversar, caso não se sinta à vontade para falar com alguém do seu convívio social, é importante buscar ajuda de um profissional de psicologia;
  2. Utilizar as estratégias e ferramentas de cuidado que você tenha usado anteriormente em alguma situação de crise ou sofrimento, assim como as ações que trouxeram sensação de maior equilíbrio e conforto emocional;
  3. Investir em atividades como meditação, leitura, exercícios de respiração e exercícios físicos, que contribuem para a diminuição do nível de estresse. Vale ressaltar que é importante não camuflar seus pensamentos no que se refere à situação provocada pela pandemia COVID-19, porém ficando atento para não supervalorizá-los. Ou seja, dê somente a atenção necessária aos acontecimentos externos e internos, nem mais, nem menos;
  4. Para os que necessitaram manter suas rotinas profissionais, é importante implementar práticas diárias como: realizar pausas sistemáticas durante sua jornada de trabalho (ex.: levantar de sua mesa, alongar-se, tomar um sol, beber uma água, fazer pelo menos 01 movimento respiratório consciente de hora em hora);
  5. Evitar o isolamento junto a sua rede socioafetiva (familiares, amigos e colegas de treino, seu ou sua sensei), mantendo contato moderado, mesmo que de forma virtual;
  6. Caso sinta-se rejeitado ou abandonado, por medo de contágio, compreenda que não é pessoal, mas esta reação do outro pode ser reflexo do medo e do estresse causado pela situação;
  7. Refazer seus planos e estratégias de vida, de forma adaptada às novas condições de vida que a pandemia impõe;
  8. Filtrar suas fontes de informação sobre a situação da pandemia, buscando por exemplo, sites confiáveis como o da  Organização Mundial da Saúde (OMS) – a exposição excessiva às notícias negativas pode potencializar pensamentos disfuncionais;
  9. Fomentar e participar de ações de solidárias ajudam a elevar a sensação de bem estar, e;
  10. Não muito habitual aos atletas, mas importante lembrar que evitar o uso do tabaco, álcool ou outras drogas, contribuem para saber lidar com os comportamentos privados que apareçam de forma excessivamente negativas.

Vale relembrar que, se mesmo seguindo as recomendações, você ainda se sentir como se estivesse tendo prejuízos ou com a sensação de que está perdendo o controle, considerando que a psicologia comportamental enquanto ciência traz os nossos pensamentos, sentimentos e emoções como “comportamentos privados” de cada pessoa, é importante buscar o auxílio de um Psicólogo, que é o profissional capacitado e habilitado para lhe orientar e lhe dar o suporte necessário, afim de que você mantenha o controle sobre sua saúde emocional.

Outro aspecto importante a ser frisado é que sinais físicos podem aparecer como forma de somatização dos sintomas psicológicos. Ou seja, a partir da sensação de sofrimento, do sentimento de tristeza, do medo generalizado, da ansiedade excessiva, da angústia e da falta de motivação, dentre outros sinais, principalmente os atletas por estarem afastados das suas rotinas de treinamentos podem apresentar sintomas físicos negativos como dores, inflamações, tensões musculares, etc, que podem aparecer de forma prolongada, podendo vir a desencadear uma patologia a médio ou longo prazo.

Assim, vale a pena ficar atento aos sinais, como também seguir algumas dicas básicas para passar mais levemente por este momento de crise: respire pausadamente e observe em seu ambiente todas as possibilidades (considere pensamentos, sentimentos e emoções, objetos e eventos, tudo que componha seu espaço); faça uma lista das coisas/atividades que você gosta (organize a lista em ordem crescente do que você menos gosta para o que você mais gosta); separe os itens da sua lista e distribua pelos dias da semana (crie uma rotina agradável e comprometa-se com ela); divida cada dia por hora e distribua de forma equilibrada os itens da sua lista (organize e separe tempo suficiente para realizar cada item); crie uma rotina diária e tente segui-la, podendo modifica-la quando necessário (troque uma atividade por outra que no momento faça mais sentido para você);

Não esqueça de considerar o espaço físico e o tempo emocional dos outros que seguem em quarentena com você.

Neste momento de dificuldade precisamos nos manter separados, porém unidos por um bem maior, a vida. Ficar invisível aos olhos dos outros, talvez seja o melhor remédio. Fique em casa.

 

Adriano Freitas

Psicólogo- CRP-03/15.916

Professor

Instagram: @luzpsi